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Cientistas desenvolvem primeiro vírus via inteligência artificial e feito impulsiona debate sobre o futuro da biomedicina

Em 14/08/2026 às 13h22

Cientistas desenvolvem primeiro vírus via inteligência artificial e feito impulsiona debate sobre o futuro da biomedicina

Até que ponto é possível estabelecer diretrizes éticas para a utilização da Inteligência Artificial (IA) em estudos que impactam a saúde humana? Esse é um dos questionamentos centrais levantados após a publicação de um artigo na revista científica "Science", em 6 de agosto, no qual pesquisadores descreveram um marco sem precedentes: a produção em ambiente laboratorial de um vírus inexistente na natureza. A barreira foi rompida com o suporte de uma IA, responsável pelo design integral do genoma viral.

Conforme o relatório, especialistas do Arc Institute e da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, empregaram o sistema de inteligência artificial denominado Evo, uma tecnologia similar ao ChatGPT, capaz de antecipar a sequência de bases nitrogenadas (A, C, G e T) que compõem o código genético dos seres vivos.

Diferente das IAs convencionais, que processam informações extraídas da rede mundial de computadores, o Evo foi treinado com um vasto banco de dados contendo material genético de milhões de vírus, bactérias, animais e plantas.

Contudo, não há motivo para alarme: a ferramenta foi configurada para gerar genomas apenas de bacteriófagos, uma classe específica de vírus que ataca exclusivamente bactérias, sendo, portanto, inofensiva para os seres humanos.

O protótipo biológico utilizado como base para o modelo foi o ΦX174, um organismo simples e amplamente estudado, composto por 5.400 letras, uma dimensão significativamente menor do que as cerca de 500 mil letras de uma bactéria básica ou as 3 bilhões presentes no genoma humano.

Após o Evo propor centenas de milhares de genomas, os pesquisadores sintetizaram 300 deles para testes contra a bactéria E. coli. Destes, 16 apresentaram capacidade de replicação e destruição bacteriana, comportando-se da mesma forma que um vírus natural. O agente sintético foi batizado de Evo-Φ36.

O impacto da IA nas pesquisas científicas

Segundo Vagner Ereno Quincozes, docente da disciplina de Aplicações e Implicações Éticas da Inteligência Artificial no curso de tecnologia do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso), a maior vantagem desta tecnologia é o incremento na velocidade das investigações.

"O sistema analisa volumes massivos de dados, identifica padrões e explora caminhos que seriam extremamente complexos de testar manualmente. Entretanto, a IA não substitui o cientista. Ela auxilia a apontar direções e identificar possibilidades promissoras, mas os resultados exigem rigorosa validação científica", pontua.

Sobre a questão ética, o professor ressalta que esse monitoramento deve ser contínuo durante todo o processo, e não apenas após a consolidação da tecnologia.

- O grande desafio da IA é que o mesmo recurso que gera benefícios imensos pode representar riscos, dependendo do uso.
- Precisamos de uma combinação de mecanismos de proteção, como segurança nos dados de treinamento, restrição de acesso a capacidades críticas, protocolos laboratoriais rígidos e fiscalização por órgãos competentes.
- É fundamental debatermos princípios e limites de maneira constante, dado que a evolução tecnológica é extremamente veloz, defende Vagner Ereno Quincozes.

Descoberta surpreendente durante os testes

Um dos aspectos que mais chamou atenção dos autores do estudo na "Science" foi a capacidade do vírus sintético de superar a resistência que as bactérias desenvolveram contra o vírus original ΦX174. O fato indica que, futuramente, esta inovação poderá ser utilizada no desenvolvimento de terapias contra infecções bacterianas resistentes aos antibióticos.

Como a IA está transformando a Biomedicina

Para compreender a influência da IA na biomedicina e a forma como o tema é abordado na graduação, o FesoNews conversou com a professora Ísis Paes d'Assumpção, responsável pela disciplina IETC IV - Aplicada à Biomedicina.

FN: Quais os benefícios a curto, médio e longo prazo que a IA traz às pesquisas na Biomedicina?

IP: A Inteligência Artificial já promove uma transformação na área biomédica, aumentando nossa eficácia na análise de dados e na identificação de padrões complexos. No curto prazo, destacam-se a análise de grandes volumes de informações genômicas, imagens e resultados experimentais, além de apoiar diagnósticos. A médio prazo, a tendência é a integração plena entre IA, bioengenharia, genômica e a criação de fármacos personalizados, permitindo simular respostas biológicas. A longo prazo, a IA deixará de ser apenas um instrumento de suporte para atuar diretamente no desenvolvimento de soluções biomédicas complexas.

FN: O que a capacidade de o vírus sintético ter vencido a resistência natural das bactérias demonstra a respeito do futuro dessas pesquisas em laboratório?

IP: Esse resultado é muito relevante pois revela que a IA consegue explorar possibilidades biológicas que superam o que ocorre naturalmente, sendo uma promessa importante para combater a resistência aos antimicrobianos, um dos maiores desafios da medicina global.

FN: São grandes os riscos relacionados à IA em contato com esse tipo de material?

IP: Há riscos reais ligados à bioética e biossegurança. É preciso notar que a IA não realiza a manipulação física de organismos, mas pode gerar informações, prever comportamentos ou desenhar sequências genéticas. O perigo surge ao integrar esse poder computacional com ferramentas de síntese de DNA e biologia sintética. Precisamos considerar o potencial de uso inadequado da tecnologia. Embora neste estudo o foco fossem bacteriófagos, a tecnologia é adaptável. Por isso, o progresso deve ser acompanhado de governança, protocolos de segurança e regulamentação estrita.

FN: Como o curso de Biomedicina do Unifeso debate o uso dessa tecnologia com os estudantes?

IP: Na formação em Biomedicina, enfatizamos que o aluno deve ter senso crítico, enxergando a IA como um complemento e não como uma verdade absoluta. Na disciplina IETC V, estimulamos a análise dos impactos dessas tecnologias no ecossistema global. A IA pode ser aplicada em várias etapas, da busca bibliográfica à análise de dados, mas é essencial que o aluno saiba questionar os resultados da máquina, verifique as fontes e entenda que a responsabilidade final pelo rigor científico é sempre do profissional.

Por: Raphael Branco

Fonte: G1

Fonte: UniFeso


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